Índios não são respeitados quando não usam cocar, diz coordenador de aldeia na zona sul de SP

No bairro da Barragem, a 12 quilômetros do centro de Parelheiros, no extremo da zona sul de São Paulo, mais de 100 famílias resistem há mais de 500 anos. Trata-se do povo indígena guarani da aldeia Tenondé Porã. Atualmente, os mais de 800 índios vivem em uma terra que foi demarcada em 1987, com 26 hectares (equivalente a 33 campos do Estádio do Morumbi).

Esse espaço está longe de ser suficiente para os índios sobreviverem da forma tradicional da cultura indígena, conforme conta o coordenador educacional do Ceci (Centro de Educação e Cultura Indígena) — escola administrada pelo munícipio — da Tenondé Porã, Adriano Karaí Poty. Por isso, a luta para resistir à maior metrópole da América do Sul não é uma tarefa fácil para os guaranis.

— Aqui a gente não tem muito espaço para plantio. Planta o necessário e o que pode ser produzido aqui nesse pedacinho. Temos vontade de plantar de tudo, mas o problema é que não tempos espaço. E a terra não é muito produtiva por ter plantação de eucalipto ao lado.

Em 5 de maio deste ano, os indígenas da Tenondé Porã conquistaram, depois de quatro anos de reinvidicação, a ampliação da Tenondé Porã para 15.969 hectares. A expansão do espaço dos guaranis foi oficializado pela portaria declaratória assinada pelo então Ministro da Justiça Eugênio Aragão.

Os terrenos nos arredores da atual aldeia já são oficialmente dos índios, no entanto, ainda não houve a demarcação. Karaí Poty acredita que essa última fase, da demarcação, será a mais demorada do processo de reconhecimento.

O guarani ainda ressalta que é necessário que haja a demarcação, pois com o atual espaço que os índios têm não é possível sobreviver do plantio.

Manutenção da cultura

Na Tenondé Porã, a comunicação entre os índios é sempre em guarani. É a primeira lingua que as crianças aprendem e, só depois, devido as muitas visitas, vão aprendendo o português.

Apesar disso, quando as crianças atingem a idade escolar, começam a ter aulas convencionais na escola municipal, o que desagrada o coordenador educacional, que deseja que “os primeiros três anos na escola seja só pra ensinar as questões culturais nossa. Depois disso, sim, começa ensinar português, matemática”. Karaí Poty ainda destaca que os índios não precisam ter história na grade curricular da escola.

— Em história a gente aprende revolução industrial e a visão que não é a realidade do índio, e essas coisa para gente não interessa.

Karaí Poty ressalta que os índios não necessitam ter os empregos convencionais da sociedade branca para ficarem satisfeitos, pelo contrário, a luta da população indígena é para conseguir sobreviver mantendo a tradição cultural, conforme descreve:

— A tradição sugere que a gente acorde e vá trabalhar. Umas 9h volta para casa, toma chimarrão, fuma, enquanto a mulher faz o café. Toma o café e volta trabalhar. Faz algum artesanato, cuida da roça, faz alguma armadilha ou cultiva a plantação. Depende muito de cada época, porque tem época que não pode caçar e tem época que não pode plantar. Época de inverno, por exemplo, é época de preparar terra e caçar, porque os animais estão engordando. Na primavera a gente não caça, porque é a época que os animais estão procriando, então começa o plantio. No verão a gente começa a colheita.

Entretanto, Karaí Pory explica que a dificuldade de sobrevivência do povo indígena já começa quando o índio não é respeitado pelo simples fato de não usar cocar, colares e não se pintar como os livros didáticos apontam.

— Se eu estou usando algo da cultura do outro, não significa que vou virar o outro. O branco, por exemplo, mesmo comendo milho, mandioca e tapioca, não virou índio. Mesma coisa a gente usando celular não quer dizer que viramos branco.

Karaí Poty se indigna com a forma com que a sociedade força os índios a viverem para respeitar à cultura indígena.

— Tem muito preconceito com índios, porque falam que ‘tem que estar dessa forma, se não tiver assim não é índio’. Mas quando um alemão chega aqui, é praticamente um deus, mesmo não sendo mais aquele alemão tradicional que usa aquele suspensório, e tudo aquilo.

Para desconstruir essa visão acerca do povo indígena, Karaí Poty explica que a modernização dos índios é o principal ponto conversado com as pessoas que visitam o local, e também ressalta a importância do artigo 26-A da Lei 11.645 de 10 de março de 2008, no qual diz que “nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena”.

*Com colaboração de Kaique Dalapola, estagiário do R7

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